Criado mudo.
Do nada pra lugar nenhum.

Para os outros.

“Muito racional, parece que tem uma pedra no peito”, “Toda besta, nunca vi”, “Ah, mas tu é toda fechada, não sabe como é o que estou sentindo”, e até “Tudo tu chora”. 

Essas são algumas das frases que ao serem pronunciadas já me deixaram completamente sem resposta. Como vou responder à uma afirmação tão categórica de uma coisa que nem eu sei? 

Sempre me julguei muito racional e objetiva até eu me apaixonar e assistir romances e isso aconteceu com uns 12 anos. Paixão com 12 anos? Sim, a mais devastadora do mundo, até chegar a dos 17 anos, que foi pra toda a minha vida, até chegar a dos 21 que na verdade eu nem achava que era tanta coisa assim. Mas eis que estou com 22 e ainda é ela que me traz as agitações e dúvidas que vim falar aqui.

Agora nós.

Um breve resumo porque acabei de me perder no que ia dizer: Me apaixonei e não sabia, julguei esquecer, mas depois descobri que não. Lembrei, lembrei, lembrei e lembrava toda a hora, e lembrava sempre que tinha que esquecer logo em seguida. 

A memória fica seletiva demais quando a gente gosta, só lembrava de sorrisos, abraços, pernas entrelaçadas, beijos de esquimó e mensagens de boa noite. Usei a mesma arma para esquecer. Lembrava em seguida das brigas, dos defeitos, da teimosia, do ciúme, das mentiras. 

E era aí que vinha a pergunta. A pergunta que eu sempre faço quando conheço ou fico com alguém e que, por isso, me julgo muito racional: Essa relação vai me fazer bem e me acrescentar em algo? É algo como: Vou me tornar uma pessoa melhor estando com ele? 

Nessa hora o beijo de esquimó é um defeito, a perna entrelaçada é ciúmes e a mensagem de boa noite uma mentira, tudo misturado. Fico perturbada sem saber a resposta porque se a mensagem dele era uma mentira, a felicidade no meu coração não era e o que um sentimento desse pode me trazer de mal? 

Agora eu…

É como o fato de eu estar com uma pessoa que me faça sentir ciúmes vá despertar ainda mais esse sentimento em mim, ou o fato de ele não gostar de ir ao cinema vá me afastar de uma cultura que eu valorizo tanto. Preciso de alguém que me acrescente, que me traga informações novas, pensamentos novos, pontos de vista diferentes, argumentos e aspirações. Isso porque uma das coisas que eu mais admiro em uma relação é essa rara e irradiante evolução que acontece com os dois.

Mas aí eu fico sozinha, não acho que ele vai me acrescentar em algo e nem conheci gente que possa fazê-lo e sinto falta do carinho, do coração batendo forte, da divisão, da soma, da dedicação e de todos esses sentimentos que afloram em mim e na maioria das pessoas quando estão apaixonadas. Então, vale a pena ficar com uma pessoa que te satisfaz emocionalmente com carícias e palavras, mas que não te impõe desafios, cobra resultados, mostra caminhos, reconhece os esforços?

… O que faço?

Assumo uma postura lógica, ou me rendo à beijos de esquimó? Continuo me afastando e evitando aproximação ou dou passagem ao inesperado?

Vou confessar que já pensei sobre isso várias vezes e que nunca chego em um resultado, mas paralelo à busca, vou procurando qualidades, cavando admiração e plantando encontros acidentais, o que faz de mim uma besta mesmo. Mas é só ele dar um motivo de raiva que eu penso nos defeitos, nas brigas e mentiras. E lembro que sou uma pessoa racional, dura.

Ai, vou dormir.